Histórias da nossa terra
Breve apresentação da povoação de Caneças
“Não existem dados
precisos sobre a sua fundação, mas Costa Américo refere
no Dicionário Coreográfico de Portugal que é uma povoação
muito antiga a qual teria sido fundada pelos muçulmanos. Em defesa
desta opinião, apontam a existência de vestígios que eles
teriam deixado e também à origem do nome dado à povoação,
visto derivar de um vocábulo árabe caniça, que significa
em língua portuguesa templo de cristãos.
A tradição oral divulgada, ainda hoje, entre a população
de Caneças, dá-nos uma versão diferente quanto à
sua origem e situa a sua fundação em épocas muito posteriores,
já do tempo da nossa história.
Conta-se que tendo passado por ali El-Rei D. Dinis lhe foi dada água
por uma caneca e para recordar o facto, designou o local por caneco. A evolução
deste termo teria, mais tarde, dado a palavra Caneças.” (1)
Caneças é, sem dúvida, uma povoação muito
antiga, como atestam alguns autores.
Outrora, Caneças pertenceu à freguesia de Santa Maria de Loures
e esta, por sua vez, ao termo de Lisboa até à criação
do concelho dos Olivais, em 11-09-1832.
Em 22-07-1886, o concelho dos Olivais foi extinto e criado o concelho de Loures,
em 27-08-1886, passando a freguesia de Santa Maria de Loures, a que pertencia
Caneças, a fazer parte concelho de Loures.
No ano de 1915, no dia 10 de Setembro, foi promulgada a Lei nº 413, no
Diário do Governo, que criava no concelho de Loures a paróquia
civil de Caneças, abrangendo a nova freguesia os lugares de Caneças
e de Vale de Nogueira.
Caneças foi elevada à categoria de Vila a 16 de Agosto de 1991
(Lei nº 77/91).
Caneças, hoje, pertence ao município de Odivelas, criado em
19 de Novembro de 1998, desanexado do município de Loures.
É interessante verificar que a povoação está rodeada
de testemunhos orais e escritos que comprovam a antiguidade do lugar, tornando-se
conhecido pela beleza natural dos seus espaços, pela pureza do seu
ar, pela frescura das suas águas e pela riqueza do seu solo. Qualidades
naturais que transformaram Caneças num local de veraneio e de cura,
principalmente de doenças pulmonares, e contribuiram para o florescimento
de três actividades económicas – a dos aguadeiros, a dos
viveiristas e a das lavadeiras.
Os canecenses souberam aproveitar as condições do lugar para
garantir o seu sustento, usufruindo da prática do turismo, do comércio
da água, da actividade das lavadeiras, dos viveiristas, do trabalho
da lavoura e da pecuária. Memórias, que fazem parte da nossas
vivências.
Não pretendemos transmitir a ideia de que a população
de Caneças vivia somente do trabalho. As actividades religiosas, recreativas,
culturais e desportivas faziam, e fazem, parte do quotidiano da população.
Entre as instituições, destacamos a Igreja Paroquial de São
Pedro, onde a vivência religiosa assumia importância na vida da
comunidade. Testemunho dessa vivência, as festividades religiosas centenárias
que se realizavam – a Festa da Páscoa da Ressurreição,
à qual foi associada a procissão em honra de Nossa Senhora do
Rosário, a Festa em honra do Santo Padroeiro, S. Pedro (dia 29 de Junho),
e a Festa em honra de S. Sebastião, realizada sobretudo no mês
de Setembro, e que, mais tarde, passou a estar associada à Festa dos
Veraneantes.
Também as festas populares, dedicadas aos Santos António, Pedro
e João, eram celebradas em Caneças. Aos festejos dos Santos
populares, associam-se as marchas populares iniciadas por volta do ano 1937,
no Lugar d’Além, graças à teimosia de alguns que
quiseram dar mais cor e alegria ao seu tempo de ócio.
Recordamos também a Festa da Bela Cruz, de cariz popular, que se realizava
no dia 3 de Maio, no Lugar d’Além. Segundo o testemunho oral
de alguns dos moradores, na Fonte Velha era colocada uma cruz decorada com
flores silvestres e realizava-se uma peregrinação até
uma cruz que existia na Rua do Alto da Cruz. Terminado o dia de trabalho,
a festa era abrilhantada ao som do acordeão, que convidava os presentes
a um pezinho de dança.
Desta tradição, perdurou, até aos nossos dias, a colocação
da cruz de flores na Fonte Velha, no dia 3 de Maio.
Quando falamos das actividades musicais, recreativas e desportivas, destacamos,
sem dúvida, a nossa colectividade Sociedade Musical e Desportiva de
Caneças, fundada em 19 de Março de 1880.
A preservação e a divulgação das nossas raízes
culturais são de um valor incalculável. Valorizar as tradições,
o nosso património, ajuda-nos a caminhar no presente e a perspectivar
o futuro, porque as tradições constituem, não só,
a nossa herança cultural bem como a nossa identidade. Este crescimento
cultural permite também estreitar a nossa relação social
com os outros, atendendo às exigências da sociedade actual.
Memória
A ÁGUA E AS FONTES
Falar de Caneças é relembrar um passado ligado à exploração
aguadeira, cujas águas límpidas, incolores e inodoras, de sabor
férreo, e de temperatura inferior à da atmosfera eram recomendadas
no tratamento de anemias e na convalescença de outras enfermidades.
Estas qualidades da água foram divulgadas no Jornal da Sociedade Farmacêutica
Lusitana, no ano de 1842. Também o Dr. Ascensão Contreiras na
Relação Alfabética das Águas Medicinais Portuguesas
fez referência à composição da água de Caneças,
a qual era favorável ao tratamento de doenças do estômago
e dos intestinos.
Desde tempos remotos, os habitantes da povoação de Caneças
enchiam de água bilhas de barro que faziam transportar até à
Capital.
Assim, sobre o dorso dos animais, em carroças, em galeras e, posteriormente,
em camionetas cujo combustível era o gás, substituído
mais tarde pelo combustível líquido, o comércio aguadeiro
foi crescendo, tornando-se numa das actividades económicas mais importantes
para os habitantes e também uma das fontes de receita da freguesia.
As qualidades naturais da água permitiram desenvolver o comércio
da venda da água, ligado ao aparecimento de diversas fontes, onde se
constituíram empresas familiares e sociedades. As enchedeiras e os
aguadeiros são duas das ocupações associadas à
actividade da venda da água, que fazem parte da nossa memória
colectiva.
O comércio da água era uma actividade certificada pelas autarquias.
Para tal, os proprietários das Fontes adquiriam selos metálicos
na Junta de Freguesia. A certificação da água, através
da colocação dos selos, assegurava aos consumidores a excelente
qualidade da água.
As Fontes das Fontainhas, dos Castanheiros, dos Passarinhos, da Quinta de
Castelo de Vide e das Piçarras são testemunhos de uma actividade
florescente que não conseguiu acompanhar as mudanças técnicas
e tecnológicas registadas neste tipo de actividade, mas, que a respectiva
preservação urge realizar!
AS LAVADEIRAS
Além das qualidades salutares da água, do ar e dos inúmeros
espaços verdejantes, também a actividade laboriosa das lavadeiras
tornou conhecida Caneças. Não esqueçamos o filme Aldeia
da Roupa Branca, as telas inspiradas nas lavadeiras, entre outras manifestações
culturais.
Actividade ancestral, das mulheres deste lugar, foi um contributo importante
para o sustento das famílias, ocupando um número significativo
de mão-de-obra feminina, a par das enchedeiras das bilhas de água
e das mulheres que trabalhavam na lavoura.
As lavadeiras com o mérito que lhe é reconhecido tratavam com
esmero a roupa das freguesas que recolhiam em Lisboa ou arredores. Junto das
ribeiras, dos rios ou das almácegas dedicavam-se ao tratamento da roupa.
Também o crescimento desta actividade fez surgir lavadouros públicos
e privados onde as lavadeiras por conta própria ou sob orientação
de outros procediam à lavagem das peças de roupa.
Após uma semana dedicada ao trato da roupa, as lavadeiras procediam
à sua entrega, utilizando o dorso dos animais, as carroças,
as galeras e, mais tarde, as camionetas de aluguer.
A pouco e pouco, esta actividade assistiu ao desaparecimento das lavadeiras
devido ao aparecimento da água canalizada que permitiu assim criar
espaço para a existência de um tanque nos interiores das habitações,
das máquinas de lavar roupa, levando as gerações mais
novas a procurarem outros afazeres.
Progressivamente, os lavadouros deixaram de ser utilizados o que deu lugar
à degradação ou desaparecimento de alguns destes locais.
Os viveiristas
A actividade do viveirista é também uma ocupação
centenária dos habitantes de Caneças. Para alguns, o significado
da palavra viveirista é desconhecida, pelo que importa esclarecer que
o Viveirista é a pessoa que possui ou se ocupa de viveiros de plantas,
para comércio.
Beneficiando das qualidades naturais, desde tempos que se perdem na nossa
memória, a criação e a reprodução de plantas
permitiram o desenvolvimento económico de Caneças através
da cultura de árvores em viveiros.
Os viveiristas eram, na sua maioria, naturais de Caneças, que explorando
propriedades próprias ou arrendadas formavam, por vezes, sociedades
familiares.
A partir da década de 40, cabia ao Ministério da Economia regulamentar
e autorizar as licenças para a criação dos viveiros e
respectiva venda das árvores.
Após a concessão das licenças, os viveiristas dedicavam-se
à exploração arborícola, preferindo os compradores
as árvores de Caneças, quer de sequeiro quer de regadio.
A exploração arborícola assumiu também um papel
de relevo na vida dos canecenses. Percorrendo as Feiras dos arredores, como
a da Malveira, São Pedro de Cintra, Alenquer, Merceana, Santarém,
Coruche, Brejos de Azeitão, entre outras, as árvores conheciam
vários destinos. Salientamos ainda, a venda de árvores para
as ilhas, ex-colónias e estrangeiro, sobretudo, para o Brasil.
Entre as árvores produzidas, podemos destacar: a oliveira, a cidreira,
a tangerineira, a limeira, o limoeiro, a laranjeira, o limoeiro, o pessegueiro,
o damasqueiro, a ameixoeira, e até a amendoeira, a videira e o eucalipto.
De Janeiro a Dezembro, os viveiros conheciam as diferentes tarefas agrícolas,
desde a preparação do solo até à sementeira ou
à plantação, pois cada espécie arborícola
merecia cuidados próprios.
Além da exploração arborícola, muitos canecenses
dedicavam-se à lavoura e à pecuária, vendendo o fruto
do seu trabalho nos mercados da capital e nas feiras dos arredores.
Bibliografia:
-(1) Amigos de Caneças, História de Caneças, Caneças,
1984 (Prémio de Monografia, 98º aniversário do concelho
de Loures, 3º prémio, ano de 1984).
-Morgado, Fátima, A água e as fontes de Caneças, in Loures
Magazine, nº 8, 1991.
-Morgado, Fátima, Lavadeiras de Caneças - Recordar uma época,
in Loures Magazine, nº11, 1992.
-Morgado, Fátima, As árvores e os viveiristas de Caneças,
in Loures Magazine, nº 14 e nº 15, 1992.
- Morgado, Fátima, Recordar outros tempos, in Festas de Caneças
– programa da Junta de Freguesia de Caneças1997.